Muito além da mulher na calçada

Em algum lugar muito bem guardado da minha memória, entre os meus 4 e 5 anos de idade, lembro da mão suada segurando a minha com um misto de delicadeza e força. Aos sábados, ela ia ao salão de beleza fazer as unhas e uma escova no cabelo. O tom vermelho que escolhia nas unhas era exatamente o mesmo que eu pintava as minhas. Voltávamos para casa: ela com as unhas perfeitas, os cabelos esvoaçantes, e eu com minhas unhas borradas. Eu olhava aquela mulher extremamente vaidosa, que trabalhava num escritório e era dona de si, e pensava: eu quero ser como ela!

Na casa dos meus bisavós, onde morava antes de casar e onde minha família também se abrigou por alguns poucos anos, eu passava parte do tempo admirando as maquiagens, as bijouterias, as roupas e os acessórios que ela guardava. Lembro de um espelho de mão que, de tão bonito, enchia meus olhos e meus desejos de menina que um dia ia ser uma mulher igual à dona.

 

Lembro dela arrumando a mudança para finalmente, morar sozinha num apartamento de um quarto que tinha alugado no centro de Campina Grande. Os mais velhos choravam pela “vergonha” da moça solteira que ia morar sozinha num apartamento. “Ela estava assobiando!” lembro nitidamente dessa frase, dita com um tom de pesar profundo. Ela era solteira, tinha seu próprio dinheiro, e ia morar sozinha num apartamento.

Nos finais de semana, eu e meu irmão dormíamos nesse apartamento. Que devia ser minúsculo, mas que na minha memória afetiva era tão chique e imenso quanto os das novela da Globo. Tomávamos vitamina de banana com biscoito. Eu odiava vitamina de banana com biscoito, mas tomava e repetia. No almoço, macarrão com molho de tomate e purê de batata. Ao longo da minha vida adulta, essa foi a minha comida de conforto. Tentei, sem sucesso, reproduzir a iguaria.

Numa tarde aleatória, na casa dos meus bisavós, lembro que todos pararam a conversa com a chegada de um táxi na frente da casa. Pela porta de vidro, tentamos identificar quem seria. Ela entra pela sala, chorando, dá um “Oi”, e corre para seu antigo quarto. Só os adultos puderam acudir. Lembro de copos de garapa de açúcar passando. Lembro de ouvir o choro dela.

Ela casou usando um vestido amarelo com um laço acima da barriga que já começava a despontar. Na cabeça, um chapéu, elegantérrimo. Onde estará aquele chapéu? Eu e minha prima de daminhas, com vestidos igualmente amarelos, feitos de cambraia. Na recepção, dentro daquele apartamento minúsculo, um dos primos colocou a rolha da champanhe de volta, e sacudiu tal qual um vencedor de Fórmula 1.

Quando ela falava daquela bebê que estava para chegar, seu rosto se iluminava. Mas sendo eu uma criança de quase 8 anos, não havia meios de saber o que significava a maternidade e o que vinha junto com ela.

A vida dela foi feita de trabalho. Não lembro de um único momento da minha vida em que ela não estivesse trabalhando. Foi da força desse trabalho que ela ergueu uma casa, tão caprichosamente elaborada quanto aquele pequeno apartamento. Todos os pequenos detalhes pensados e calculados.

Aquela casa me serviu de abrigo quando minhas próprias agruras começaram a se fazer insuportáveis. Numa das vezes que dormi lá, já adolescente, recebi conforto em forma de acolhimento. Me arrependo de não ter pedido uma vitamina de banana com biscoito.

As dores de uma vida podem ir se acumulando e se juntando em pedaços que ficam presos na garganta e no coração. Os pesos se acumulam quando não conseguimos dividir, abstrair, tratar. E talvez a amargura, a angústia e a tristeza sejam duras demais para ao menos tentarmos nos livrar delas.

Ela sempre me ligava. Ela sempre se preocupava com assuntos que não eram de sua responsabilidade. Mas a necessidade de manter um mínimo controle sobre qualquer coisa a alimentava.

Mesmo diante do irreparável e irreversível, ela manteria o controle. E esse desejo de manter o controle diante do inevitável fez de sua partida um evento tão dramático. Ela não queria ir embora num leito de hospital, cheia de tubos e fios, ela não queria mais sentir dor e não queria, especialmente, ver os seus definharem de agonia junto com ela. Ela queria ter controle sobre isso. Mas os desígnios da vida e da morte não estavam ao seu alcance e numa jogada trágica do destino, não conseguiu controlar sua chegada em casa.

Minha tia não foi negligenciada. Ela não foi abandonada.

Aos 62 anos, aquela mulher já aposentada e que insistia em continuar trabalhando, teve sua memória e sua imagem vilipendiadas. Minha tia era uma mulher fantástica, tinha uma casa, uma família, um emprego, pessoas que a amavam. Pessoas que hoje choram e se desesperam com sua partida inesperada e dramática, e que ainda precisam lidar com o que há de pior dentro do jornalismo, a profissão que sua sobrinha favorita (me perdoem as demais) escolheu. Um colega, que admiro enquanto homem e profissional, me disse hoje que os jornalistas que se mantém firmes em sua ética estão sendo massacrados. Eu concordo.

Venho de uma família de mulheres muito fortes e fui muito mimada por todas elas. Cada uma dessas mulheres me ensinou algo valioso. Mas nenhuma delas foi tão forte enquanto presença, do que Tia Maria.

Os olhos da menina Tatynha brilham quando lembram daquela mulher linda, vaidosa, independente, que foi morar sozinha num apartamento e que era dona da própria vida. Os olhos da mulher Taty Valéria hoje choram quando lembram do que foi preciso aguentar para chegar até aqui. Mas de toda forma, sou grata pela sua existência.

Ela me deixou dois aprendizados muito preciosos: o primeiro deles é que por mais que tentem te fazer parecer fraca, exposta, ferida e abandonada, a realidade vai ser sempre o total inverso, e pouco importa o que falem, porque o que vale é o palpável. O segundo, é que o mundo não trata bem as mulheres livres. Mas em nome de sua memória, história e trajetória, e como forma de fazer valer seu legado, vou continuar firme no meu propósito de ser a Tatynha que se transformou em Taty Valéria.

Tia Maria foi muito mais do que uma mulher abandonada numa calçada. E eu gostaria que vocês soubessem disso.

 

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